a infância inferencial
Uma pergunta, cinco anos depois
Argumento
Um regresso, cinco anos depois, a uma pergunta a que não soube responder devidamente na defesa da minha tese de doutoramento: se a privacidade é, fundamentalmente, uma questão de formação do eu em relação aos outros, o que significa isso quando a população mais afetada, os adolescentes, é precisamente a população em formação ativa?
- A privacidade é, fundamentalmente, uma questão de formação do eu em relação aos outros, e a população mais afetada pelas mudanças nessas condições é a população em formação ativa.
- Os adolescentes são, em média, mais articulados sobre a mecânica da privacidade do que os adultos, mas não conseguem projetar no futuro as consequências daquilo que revelam.
- A arquitetura do direito da privacidade assume o consentimento no momento da recolha, mas as pessoas só constroem o risco quando conseguem imaginar as consequências, e os adolescentes raramente conseguem.
- Os companheiros de IA, os grandes modelos de linguagem e os motores de recomendação transformaram a assimetria de informação numa característica ambiente da infância, e não apenas numa característica arquitetónica da vida digital.
- O que falta à conversa sobre as crianças e os sistemas digitais é um relato sereno, do ponto de vista do desenvolvimento, daquilo que está realmente a formar-se nos jovens dentro deste ambiente.
Há cinco anos, quase dia por dia, sentei-me à minha secretária, no Porto, numa chamada pelo Teams com a Professora Priscilla Regan e o Dr. Fergus Neville, e respondi, durante cerca de três horas, a perguntas sobre uma tese que passara três anos e meio da minha vida a escrever. A tese era sobre ciclistas de Milton Keynes a quem a autarquia pedia que partilhassem os dados das suas deslocações diárias em troca de benefícios cívicos vagamente definidos. Tinha sido orientada pela Professora Kirstie Ball, uma das mais destacadas investigadoras da vigilância dos nossos dias.
Quero escrever sobre aquilo para que, na altura, não tinha resposta. «Se a privacidade é, como defende, fundamentalmente uma questão de formação do eu em relação aos outros, o que significa isso para essa formação quando as condições para formar um eu mudam?» Suponho que a minha resposta, na altura, foi competente. Não é a resposta que hoje penso que a pergunta merecia.
Cinco anos e muita tecnologia nova depois, tenho andado a revisitá-la. A pergunta que tenho revirado é o que acontece quando os adolescentes substituem os adultos como a população em causa. Estão em formação ativa de um eu. Tudo o que revelam é captado por sistemas cujos usos posteriores ainda não conseguem perceber.
Parte desta revisitação passou por regressar aos dados originais, que hoje leio de forma diferente de como os li em 2020. Outra parte passou por sentar-me com adolescentes, o que tenho feito há vários anos no meu trabalho na A&J Education. Importa esclarecer que não sou clínico e que as conversas que tenho não são entrevistas formais de investigação. São conversas de coaching, conversas sobre candidaturas à universidade, conversas sobre o que os adolescentes andam a ler e como andam a dormir e como imaginam que o mundo será quando tiverem trinta anos. Já tive, provavelmente, mais de duzentas. São o trabalho empírico mais atento que fiz desde o doutoramento.
Os adolescentes com quem falo são, em média, mais articulados sobre a sua própria privacidade do que os adultos que entrevistei em 2019. Usam um vocabulário mais sofisticado. Sabem o que são cookies, rastreadores e dark patterns, e conhecem os usos, e a mercantilização, da atenção. Não são ingénuos do modo como o discurso sobre eles tantas vezes sugere. O que não conseguem fazer, mesmo quando são extremamente inteligentes, é projetar no futuro as consequências daquilo que revelam. Não conseguem ver o que os seus dados significarão daqui a cinco anos. Não conseguem ver o que um companheiro de IA fará com o que lhe contaram, nem o que um modelo treinado com a sua adolescência saberá sobre eles quando tiverem quarenta anos. Enquanto a informação que entregam é, para eles, inteiramente visível, o uso que dela será feito é, para eles e, com toda a franqueza, para todos nós, inteiramente invisível.
Os adultos que estudei há meia década não se apercebiam do risco no momento da revelação. Só se apercebiam dele quando conseguiam imaginar as consequências dessa revelação. Se não conseguiam imaginar as consequências, revelar parecia não ter custo; dito assim, de forma muito crua, era um pouco mais complexo do que isto. Toda a arquitetura do direito da privacidade, que assenta na ideia de que o consentimento no momento da recolha é o lugar da questão ética, estava desalinhada com o modo como as pessoas que estudei construíam, de facto, o risco. Foi uma das conclusões da tese, e era aquilo que Daniel Solove e Helen Nissenbaum, cada um à sua maneira, vinham a defender há anos.
Os ciclistas, porém, tinham entre trinta e cinco e quarenta e nove anos. O seu horizonte de perceção das consequências, por limitado que fosse, estava assente. Conseguiam imaginar, em termos gerais, que tipo de coisas poderia acontecer. Os adolescentes com quem agora passo o meu tempo são inteiramente outra coisa. Constroem esse horizonte à medida que avançam. A capacidade de projetar as consequências no futuro não é algo que chegue com a puberdade. O córtex pré-frontal, que faz grande parte do trabalho de pensar a longo prazo, só termina de amadurecer algures a meio da casa dos vinte ou, como alguns hoje defendem, já na casa dos trinta. E, entretanto, aquilo que a pessoa em desenvolvimento revela, ao construir uma identidade, é captado a uma escala industrial por sistemas cuja memória é permanente e cujo poder de inferência continua a subir. As intenções desses sistemas, se é que a palavra serve, não são legíveis para quem revela.
O que hoje penso que devia ter dito a Priscilla Regan é qualquer coisa como isto.
Se a privacidade é fundamentalmente uma questão de formação do eu em relação aos outros, então a população mais afetada pelas mudanças nas condições da privacidade é a população em formação ativa.
A psicologia do desenvolvimento de como um eu se faz nestas novas condições é a pergunta que a minha tese, de certo modo, fazia, e a que, pelo seu próprio desenho, não podia responder.
Cinco anos depois, tenho um vocabulário diferente para ela, em parte porque passei esses cinco anos junto da população certa, e em parte porque o mundo se encarregou de introduzir uma classe de sistemas que tornou a pergunta urgente de um modo que não era em 2021. Os grandes modelos de linguagem respondem. Os tutores de IA e os companheiros de IA guardam memória. Os motores de recomendação moldam. A assimetria de informação que atravessava a minha tese era uma característica arquitetónica da vida digital a que todos nós nos habituámos. É agora uma característica ambiente da infância.
O debate sobre o que está a acontecer às crianças online tem sido dominado, de forma produtiva em alguns lugares e destrutiva noutros, por autores que escrevem num registo de alarme. The Anxious Generation, de Jonathan Haidt, é o exemplo recente mais proeminente. Parte do alarme é justificada. Parte, creio, não é. O que tem faltado à conversa é o relato sereno, do ponto de vista do desenvolvimento, daquilo que está realmente a formar-se nas crianças dentro deste ambiente.
Haverá mais à medida que passar a pente fino os dados empíricos que tenho vindo a recolher: à data em que escrevo, duzentos e dezassete adolescentes.
Fontes
- Pereira Campos, J. F. (2021). The dynamics of data donation: privacy risk, mobility data, and the smart city. Tese de doutoramento, University of St Andrews.
- Solove, D. J. (2008). Understanding Privacy. Harvard University Press.
- Solove, D. J. (2013). «Introduction: Privacy Self-Management and the Consent Dilemma». Harvard Law Review, 126(7).
- Nissenbaum, H. (2010). Privacy in Context: Technology, Policy, and the Integrity of Social Life. Stanford University Press.
- Haidt, J. (2024). The Anxious Generation.
- Pereira Campos, J. (2026). «A Question, Five Years Later», versão original deste ensaio, em inglês.
Mais ensaios
- Pereira Campos, J. (2026). A adolescência algorítmica fora do Ocidente. Ensaios, setembro de 2026.
- Pereira Campos, J. (2026). Quando o vigilante se tornou confidente. Ensaios, junho de 2026.
- Pereira Campos, J. (2025). Viver dentro dos algoritmos. Ensaios, dezembro de 2025.
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- Pereira Campos, J. (2026, 30 de abril). Uma pergunta, cinco anos depois. drjorgecampos.com. https://drjorgecampos.com/pt/journal/uma-pergunta-cinco-anos-depois
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- Pereira Campos, Jorge. «Uma pergunta, cinco anos depois». Dr Jorge Pereira Campos, 30 abr. 2026, drjorgecampos.com/pt/journal/uma-pergunta-cinco-anos-depois.
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- Pereira Campos, Jorge. «Uma pergunta, cinco anos depois». Dr Jorge Pereira Campos, 30 de abril de 2026. https://drjorgecampos.com/pt/journal/uma-pergunta-cinco-anos-depois.

