o debate público
A adolescência algorítmica fora do Ocidente
Argumento
O mesmo sistema de recomendação chega hoje a adolescentes de Luanda, Maputo e Praia, mas a investigação que orienta o debate público foi feita com crianças norte-americanas e europeias. Um relatório publicado em 2026 coloca Moçambique e Angola acima de Portugal no bem-estar juvenil e mostra que o telemóvel chega lá mais tarde. O que isso prova e não prova, e o que escolas e famílias podem fazer.
- O algoritmo é o mesmo em Helsínquia e em Maputo; a infância à volta dele não é, e é essa diferença que a investigação ainda não estudou.
- A idade do primeiro telemóvel é uma das poucas variáveis com uma associação consistente ao bem-estar adulto, ainda que correlacional e medida sobretudo por uma só equipa, e a vantagem africana pode ser apenas um acidente de calendário.
- Os dados da Sapien Labs descrevem a minoria ligada: em Moçambique, menos de um quinto da população usa a Internet.
- A quase totalidade da investigação sobre adolescentes e ecrãs provém de sociedades ocidentais, como Henrich, Heine e Norenzayan já mostravam para a psicologia em 2010.
- As escolas portuguesas de Luanda, Maputo, Praia, São Tomé e Díli são um laboratório natural que ninguém está a usar.
Em fevereiro deste ano, uma notícia da Lusa percorreu a imprensa de língua portuguesa com um título que soava a boa notícia: Moçambique lidera a saúde mental dos jovens, o Brasil está entre os piores, os angolanos são os mais espirituais. A fonte era o relatório Global Mind Health in 2025, da Sapien Labs, e os números eram estes: entre 84 países, Moçambique ocupava a 12.ª posição no bem-estar mental dos 18 aos 34 anos, Angola a 25.ª, Portugal a 46.ª. Seis dos dez primeiros lugares pertenciam a países da África subsariana; o Reino Unido e o Japão estavam entre os dez últimos.
Li o relatório na íntegra, porque há uma pergunta que me acompanha há anos e que aquele quadro tocava de frente: o que acontece quando o mesmo sistema de recomendação, o mesmo TikTok, o mesmo ChatGPT, chega a adolescentes cuja infância não se parece em nada com aquela que a investigação conhece?
O que o relatório mede, e o que não mede
A Sapien Labs recolhe as respostas através de anúncios no Meta e no Google, em 23 línguas, incluindo o português europeu e o brasileiro; o relatório de 2025 consolida cerca de um milhão de respostas de 2024 e 2025. Os autores reconhecem que os dados refletem indivíduos «com acesso à Internet, proficientes na língua e autosselecionados», e que as tendências «não deverão refletir populações offline».
Em Moçambique, essa reserva não é uma nota de rodapé. Segundo o DataReportal, no final de 2025 apenas 19,8 por cento da população moçambicana usava a Internet, e 11,4 por cento tinha uma identidade em redes sociais. Em Angola, 44,8 e 14 por cento. Em ambos os países, cerca de metade da população tem menos de dezoito anos. O jovem moçambicano que respondeu ao inquérito pertence, por definição, a uma minoria ligada, e é a essa minoria que o 12.º lugar pertence. Nada disto invalida o relatório; invalida a leitura confortável. Que os jovens ligados de Maputo declarem mais bem-estar do que os de Lisboa é um facto interessante. Não é ainda uma explicação.
A idade do primeiro telemóvel
Há, porém, nesse relatório um dado que recebeu menos atenção. A Sapien Labs perguntou a 85.633 jovens de 18 a 24 anos, em 79 países, com que idade tiveram o primeiro telemóvel com Internet. A média global foi catorze anos. Na Finlândia, 9,9; na Tanzânia e no Uganda, cerca de dezoito. Na Europa e na América do Norte, entre os doze e os treze; na África subsariana, por volta dos dezasseis. Portugal surge no 24.º lugar dos mais precoces; Moçambique e Angola nas posições 52 e 54, do lado dos mais tardios.
A mesma equipa tinha examinado, em maio de 2023, a relação entre essa idade e o bem-estar adulto em 27.969 jovens dos 18 aos 24 anos. Entre as mulheres, a percentagem classificada como em sofrimento ou com dificuldades descia de 74 por cento, entre quem recebeu o primeiro telemóvel aos seis anos, para 46 por cento entre quem o recebeu aos dezoito. Entre os homens, de 42 para 36. A dimensão que mais melhorava era o Social Self, a forma como a pessoa se vê e se relaciona; os problemas que mais recuavam eram os pensamentos suicidas, a agressividade, a sensação de desligamento da realidade e as alucinações. Entre as mulheres, a tendência mantinha-se em todas as regiões estudadas, África incluída, e mesmo entre quem não relatava adversidades na infância; entre os homens era mais fraca, e menos nítida fora da Europa e das Américas.
Convém ler isto com a cabeça fria, e os autores ajudam: reconhecem que se trata de «tendências populacionais e correlações que não constituem prova definitiva de causalidade», embora considerem improváveis as explicações alternativas. Em 2019, Amy Orben e Andrew Przybylski mostraram que a associação entre o uso de tecnologia digital e o bem-estar adolescente é negativa mas pequena, explicando no máximo 0,4 por cento da variação. Os céticos ganharam, em grande parte, esse debate. Mas a idade de acesso é uma variável diferente do tempo de ecrã: mede quando uma criança passou a viver com um sistema de recomendação no bolso, e não quantas horas por dia lhe dedica. É, até hoje, uma das poucas variáveis com uma associação consistente ao bem-estar adulto, ainda que correlacional e medida, em grande parte, por uma só equipa.
O relatório de 2025 acrescenta uma nuance honesta: as idades mais tardias em África podem refletir «o período de introdução e de marketing agressivo dos smartphones nas regiões, e não escolhas culturais». A vantagem moçambicana pode ser um acidente de calendário, e os acidentes de calendário corrigem-se depressa: nos Estados Unidos e na Índia, onde o projeto já inquire adolescentes de 13 a 17 anos, a idade do primeiro telemóvel baixou cerca de dois anos.
Uma ciência feita noutro lugar
Em 2010, Joseph Henrich, Steven Heine e Ara Norenzayan publicaram em Behavioral and Brain Sciences o artigo «The weirdest people in the world?». Recordavam, a partir de um levantamento de Jeffrey Arnett, que nas principais revistas de psicologia 68 por cento dos sujeitos eram norte-americanos e 96 por cento vinham de nações industrializadas ocidentais, e defendiam que os membros dessas sociedades, «incluindo as crianças pequenas», estão entre as populações menos representativas que se poderiam escolher para generalizar sobre o ser humano.
Quinze anos depois, a investigação sobre adolescentes e ecrãs tem exatamente essa geografia. As coortes longitudinais mais citadas são britânicas e norte-americanas; os inquéritos de referência sobre posse de telemóveis na infância são do Pew e da Common Sense Media, sobre crianças dos Estados Unidos. A ciência faz-se onde há quem a pague. Mas quando um diretor de escola em Luanda ou um pediatra na Beira quer saber o que fazer, a única evidência disponível foi produzida com crianças cuja infância decorre em casas pequenas, com um ou dois irmãos e com uma escola que ocupa o dia inteiro.
A infância à volta do algoritmo, em Moçambique ou em Cabo Verde, é outra. Em muitas casas há mais adultos por criança e menos privacidade doméstica; há a rua como espaço de infância; há uma rede familiar alargada, ainda que os jovens moçambicanos ligados declarem, no relatório da Sapien Labs, uma das mais baixas proximidades à família adulta (Moçambique está entre os três países com o valor mais baixo), e há níveis de espiritualidade declarada entre os mais altos do mundo. Não sei o que cada um destes fatores faz à relação entre uma adolescente e o seu telemóvel. Sei que ninguém o mediu.
As escolas portuguesas, e o que se pode fazer com o que se tem
O Estado português mantém, através da Direção-Geral da Administração Escolar, uma pequena rede de escolas públicas fora do país. Em África e em Timor, são a Escola Portuguesa de Luanda, a Escola Portuguesa de Moçambique em Maputo com um polo na Beira, a Escola Portuguesa de Cabo Verde na Praia com um polo no Mindelo, a Escola Portuguesa de São Tomé e Príncipe e a Escola Portuguesa de Díli; a de Macau completa a rede. Ensinam o currículo português a milhares de crianças longe de Lisboa. São um laboratório natural: o mesmo programa de Matemática e o mesmo TikTok, em cinco infâncias distintas.
O que podem fazer, com o que já têm? Podem tratar a idade do primeiro telemóvel como decisão coletiva e não individual. A pressão para dar um telemóvel a uma criança de nove anos vem quase sempre do facto de os colegas já o terem; um acordo entre os pais de uma turma, sem lei e sem circular ministerial, muda esse cálculo. É a intervenção mais barata que conheço.
Podem aproveitar o que a escassez ainda permite. Onde a ligação é intermitente e os dados custam caro, o telemóvel partilhado da casa, em vez do aparelho pessoal, é prática comum por necessidade. É também uma prática melhor: o dispositivo pertence à família e não à criança, e o que a criança faz com ele acontece à vista.
Podem, por fim, recusar a ideia de que estão atrasadas. A narrativa da inclusão digital trata o acesso precoce como progresso e o tardio como défice. Os dados que temos sugerem o contrário: a Tanzânia, onde o primeiro telemóvel chega aos dezoito, não parece estar a perder nada que valha a pena ter.
O que ainda não sabemos
Não sei se a relação entre idade de acesso e bem-estar se mantém quando o acesso é intermitente, partilhado e caro. Não sei se a rua e a família alargada amortecem o que o algoritmo faz a uma identidade em formação. Não sei se os jovens moçambicanos ligados de hoje, que receberam o telemóvel aos dezasseis, terão filhos que o recebam aos dez, nem o que isso lhes fará. Ninguém sabe, porque ninguém perguntou.
Os dados da Sapien Labs estão abertos, mediante pedido, a investigadores de universidades e de organizações sem fins lucrativos. Há universidades em Maputo, em Luanda e na Praia, e há uma língua comum. As escolas portuguesas no estrangeiro têm, dentro das suas salas, a coorte de que esta investigação precisa. O que falta não é o material; é a decisão de fazer a pergunta no lugar onde a resposta ainda não foi dada por outros.
O algoritmo é o mesmo em Helsínquia e em Maputo. A infância à volta dele não é, e é essa diferença, e não a semelhança, que ainda temos para estudar.
Fontes
- Sapien Labs, Global Mind Health in 2025 (relatório, fevereiro de 2026): PDF e página do relatório
- Sapien Labs, Age of First Smartphone/Tablet and Mental Wellbeing Outcomes (relatório rápido, 15 de maio de 2023): PDF
- Sapien Labs, Global Mind Project, Researcher Hub (condições de acesso aos dados): sapienlabs.org
- Lusa/HealthNews, «Moçambique lidera saúde mental jovem, Brasil entre os piores, angolanos mais espirituais» (26 de fevereiro de 2026): healthnews.pt
- DataReportal, Digital 2026: Mozambique: datareportal.com
- DataReportal, Digital 2026: Angola: datareportal.com
- Direção-Geral da Administração Escolar, Rede de Escolas Portuguesas no Estrangeiro: dgae.medu.pt
- Henrich, J., Heine, S. J. e Norenzayan, A. (2010), «The weirdest people in the world?», Behavioral and Brain Sciences, 33(2-3), 61–83: doi.org
- Orben, A. e Przybylski, A. K. (2019), «The association between adolescent well-being and digital technology use», Nature Human Behaviour, 3, 173–182: doi.org
Mais ensaios
- Pereira Campos, J. (2026). Restrição sem conversa é metade da resposta. Ensaios, setembro de 2026.
- Pereira Campos, J. (2026). Uma pergunta, cinco anos depois. Ensaios, abril de 2026.
- Pereira Campos, J. (2026). Quando o vigilante se tornou confidente. Ensaios, junho de 2026.
Citar este ensaio
- APA
- Pereira Campos, J. (2026, 25 de setembro). A adolescência algorítmica fora do Ocidente. drjorgecampos.com. https://drjorgecampos.com/pt/journal/adolescencia-algoritmica-fora-do-ocidente
- MLA
- Pereira Campos, Jorge. «A adolescência algorítmica fora do Ocidente». Dr Jorge Pereira Campos, 25 set. 2026, drjorgecampos.com/pt/journal/adolescencia-algoritmica-fora-do-ocidente.
- Chicago
- Pereira Campos, Jorge. «A adolescência algorítmica fora do Ocidente». Dr Jorge Pereira Campos, 25 de setembro de 2026. https://drjorgecampos.com/pt/journal/adolescencia-algoritmica-fora-do-ocidente.

